domingo, 31 de agosto de 2014

#15 Visite-me quando puder


No quintal
Temos rosas e elefantes
Mas não me leve a mal
Sempre gostei do irreal
Criei minha própria ilha
Passos e dias 
Mergulhado em utopia
É bom ser atemporal

(Imagem:  Gregory Colbert. Ashes and Snow)
https://gregorycolbert.com/

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

#14 Onde é?


Só Deus sabe o quanto pesa continuar
Diante de mim correm as desgraças do mundo
Atônito, sou o espectador mudo
Em silêncio vejo-o andar
Acompanho a contragosto 
Como uma criança perdida
Chorando
Sem saber onde a mãe pode estar
Não para de mover-se um minuto
Engole o choro, olha tudo
Pela primeira vez se sente sozinho
Sabe que deve seguir
Sabe dentro de si
Por mero instinto
Há um lugar em que precisa chegar
Face a face com isto
Isto que não posso mudar
Sequer posso tocar
Frente a isto
Indo onde devo ir
Mesmo sem saber o porque
Me vejo sorrindo
Só que ainda assim
O sangue em minhas veias
Circula em lágrimas diluído
Sinto o fel em cada milimetro do corpo
A cada batida de meu coração
Até quando posso engolir meu próprio choro?
Até quando posso segurar tanta emoção?

(Imagem Glow de Casey Baugh)
http://www.caseybaughfineart.com/

sábado, 23 de agosto de 2014

#13 Hoje e Sempre


A vida urde lá fora
Grita por aí
Enquanto corre por todos os lados
Sem ser vista nem ouvida
Esta é a vida
Tenta chamar atenção
Sendo bela na tristeza
Perfeita na alegria
Esta é a vida
Ela conspira
Junto da natureza
Algum plano de felicidade
Melhor que qualquer governo
A vida sabe
Que nossa alma
Ninguém pode comandar
A vida trama
A favor da liberdade
A vida urde lá fora
Grita por aí
Enquanto corre por todos os lados
Sem ser vista nem ouvida
Esta é a vida
A vida que me entra pelas narinas
Não sei se eu inspiro a vida
Ou a vida que me inspira
Só sei que sem inspiração
Ninguém espira poesia.

(Imagem: Henri de Toulouse-Lautrec, Nude standing before a mirror)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

#12 A Caverna


O fantasma da palavra me segue
Vejo a beleza inefável do mundo
Diante da qual deveria permanecer calado
Mas insisto em escrever
Ele sussurra em meu ouvido
Num falso relato do que se vê
De forma pobre descrevo a silhueta
Do que ao meu redor existe
E invade meu ser
Se leres meus versos
Só há de encontrar uma sombra
Imperfeita e deformada
A vida é silencio
A morte é a palavra
Deveria permanecer trancada
Sem tocar a realidade
Deixa-la imaculada
Como é de verdade



(Imagem: Kumi Yamashita)
http://www.kumiyamashita.com/

sábado, 16 de agosto de 2014

#11 Oração


Não há nada como o passar do tempo
Impossível fugir dessa realidade
Mãos pobres mendigam
A Lua dorme
O Sol a pino
Absorto
Absorvo
O mundo é o que é 
Uma parede de mármore frio
Te impede de seguir
Então vai
Continua
Pedindo e pedindo
O pão nosso de cada dia.

(Image: O Mendigo de Geza Kukán)


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

#10 Sem Voz


Uma moça me pediu um poema
Uma novela, um romance
Algumas palavras
Que a fizesse ter fé na vida
Voltar a procurar sua metade perdida

Levantei-me
Beijei-a na mão
Dei minha benção

Minha filha
Não há poeta
Que possa superar
A beleza de se olhar
Com compaixão
Tão vasto universo
Deixando sempre
Aberto o coração

As palavras que deseja
Já estão escritas
Olhe
Veja
O poema 
A novela
O romance
O mundo mudo
Lhe dizendo tudo

(Imagem: After William Russell Flint de Fran McGarry)

sábado, 9 de agosto de 2014

#9 Futuro amor


Tenho um milhão de palavras
Nem todas sei o significado
Mesmo que soubesse 
Não importaria
Nenhuma delas serve
São tolas e vazias
Então permaneço calado
Aguardando nosso dia
Onde nada mais se move
Só eu e você
Em perfeita harmonia
No silêncio do tempo sem fim
Você morando em mim
Como sempre houve de ser
Mesmo sem palavras para dizer
Nesse nosso dia
Nós vamos nos entender

(Imagem: The Nu Project)
http://www.thenuproject.com

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

#8 Loucura


Meus pés não são meus
Me levando até onde devo chegar
Antes mesmo que eu soubesse onde estava indo
Eu já caminhava em sua direção
Agora eu sei

A me esperar
Com sua mão estendida
Para afagar minha cabeça
Como uma mãe
Quando vê seu filho voltar
Após anos da partida
Deseja me tocar
Posso ver em seus olhos
Em seu sorriso
Me parece acolhedora

Por breves momentos eu anseio seu abraço
Talvez meus passos
Caminhando sem que ordene
Pressintam que entre seus braços
É meu lugar
Talvez eu sempre tenha lhe pertencido
E não há porque não me entregar

Seus lábios me convidam a beija-la 
Por mais que relute
Meu dia há de chegar.


(Imagem: Madness)
Essa pintura aparece no filme "Modigliane Paixão pela vida" e foi feita especialmente para ele

sábado, 2 de agosto de 2014

#7 Herança


Do Bardo herdei o coração
Rasgado como o poeta
Que fez como Sol Julieta
Descreveu angustias de Romeu
Herdei versos
Que muito antes de mim
Já sabiam do fim
De todo amor meu

(Imagem: John Martin - The Bard 1817)