domingo, 20 de novembro de 2016

#64 Partículas e entropia


Se cria e se aniquila
Partícula e antipartícula
Enquanto vende-se na esquina
o corpo, a droga, a vida
O mundo se desfaz
Em meio a tantas coisas
Ignoramos do infinito
Ao vácuo quântico
Onde se surge do nada
Onde se perde a matemática
No vai e vem da existência
Definhando em inercia
Romântico, pós-moderno, vadia
Rótulos de palavras vazias
De origem esquisita
De fim certeiro
Na igreja ou mesquita
Há quem queira dinheiro
Há quem queira vida eterna
Há quem queira ser verdadeiro
Vivemos muito além da borboleta
Somos grão de areia em HD140283
Como vocês se veem?
Infinitos ou ínfimos?
Como é ser pó que perambula
Ignorando amarguras
Não vendo a boca de fome
Seca de sede
Tapando os ouvidos para o grito
Vindo da boca de fumo
Seca de sentido
Na vastidão de tudo
O que importa é o umbigo
Uma erupção fria de tristeza
Em ebulição o vulcão da indiferença
Isso matará o planeta.

(Imagem: Maurits Cornelis Escher)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

#63 Natron


Às margens de mim não me reconheço
Águas correndo em circulo
Turvas como uma mente em entropia
Não me vejo
Jamais seria seduzido como Narciso
Mas Eco tampouco me chamaria atenção
O que vejo não é bonito nem mesmo feio
Olhando há algum tempo 
É como se a corrente  sequer se movesse
Tudo igual, apesar da mudança
Um bloco frio de mármore liquido
A um passo de petrificar-se
É doloroso procurar pela vida em algo morto
Me afogaria se não fosse tão raso
É doloroso procurar pela morte em meio a covardia
Às margens de mim não me encontro.

(Imagem: Julio Reyes)
www.julioreyes.com

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

#62 Chove sertão


Cheia de graça a desgraça dessa vida
Malsucedido no sucesso
Fracassado no fracasso
Um mar de poeira e tristezas
Um lugar que ninguém se arrisca nadar
Chove seca, inundando de deserto
Todo o meu chão.

(Imagem: Sasha Vinci)
www.sashavinci.it

domingo, 31 de julho de 2016

#61 Fins do final


Calado caminho por ruas retas
Mas minha mente vaga perdida
Correndo de encontro ao Minotauro
Sem o novelo de Ariadne
Sem coragem
Não sou Teseu
Não sou semi-deus
Não sou eu
Há tempos me perdi
Neste labirinto construído em mim
Há tempos estou aqui
Serei eu Dédalo
Serei eu Ícaro
Irei tocar o Sol
E no final acabarei caindo?
Ou ficarei preso
Lutando para não ser devorado
Por esta besta que permanece à espreita?
Independente do fim
Nenhum deles fui eu quem quis

(Imagem: Minotaur por Emil Azamora)
www.emilalzamora.com

domingo, 24 de julho de 2016

#60 Completa incompletitude


Sempre teve algo errado
Não sei se fiz o caminho torto
Ou o caminho torto me fez
Só sei que apesar de tanto defeito
Um dia passei por ai
Apertando os olhos míopes
Te vi sorrindo
Sem querer parecer piegas
Era lindo
Você me deu um oi
E eu já queria lhe dar meu coração
Mas não sabia onde ele estava
Nem lembrava que o tinha
Talvez você fosse a última peça
Aquela que fica faltando no quebra-cabeça
Aquela que sempre some em baixo da mesa
Será que no final de tudo você caberia?
Não sei
Não importa
Já ouvi dizerem que o tempo cura tudo
Pra mim ele fodeu tudo
Você veio cheia de defeito
E cada um deles me deliciava
Ao ponto que me enchiam o saco
Era lindo e chato
Ouvir sobre a tatuagem que queria fazer
Em um minuto
Mil sonhos
Falando tudo atropelado
Eu só ouvindo e torcendo
Como ainda torço
Para que todos sejam realizados
Eu guardei cada palavra
Assim como tenho em mim
A cor dos seus olhos próximos aos meus
E se desses mesmos olhos que um dia me sorriram
Eu fui responsável por fazer uma lágrima brotar
Se na minha loucura de não saber viver
E muito menos amar
Eu lhe fiz chorar
Me desculpe
Infelizmente não dá para recomeçar
Se eu estraguei alguma pequena parte
Nessa imensa obra de arte
Que é seu coração
Peço perdão
Porque o meu ainda não achei
Talvez não o tenha
Ou perdi quando tropecei
Mas não tenha dó de mim
Nada é tão triste assim
Se minha felicidade veio na hora errada
E eu não pude tocá-la
Se não tenho coração
Ou alguém que me dê a mão
Ainda tenho a poesia
Ela sempre me fará companhia

(Imagem: Lovers farewell por Christian Schloe)
facebook.com/ChristianSchloeDigitalArt/

domingo, 17 de julho de 2016

#59 Hoje foge



Hoje eu chorei de saudade
Acordei contigo na lembrança
Lembrei do teu sorriso
E dos teus carinhos
Me veio o nó na garganta
Aquele nó que dá quando se vai toda esperança
Esperança que eu tinha de quem sabe um dia
Te dar aquele abraço apertado
Ouvindo você reclamar
“vai me machucar menino”
Cada lágrima que cai
Carregada de saudade
Eu enfrento minha tempestade
Pois faltou tempo
Para tanto amor
Amor que eu nem sabia que tinha
Nem eu me conhecia
Mas tu já era minha vida
Então eu vi você partir
Sem perceber que era o fim
Nunca mais poder te olhar
Ah! Que tortura é pra mim
Hoje eu acordei com saudade
Saudade do tempo que eu era criança
Saudade do tempo que te via todo dia
Saudade da sua alegria
Que também era minha.

(Imagem: Vergine de Oliviero Rainaldi)
www.olivierorainaldi.net

domingo, 10 de julho de 2016

#58 Ainda morro mais que vivo


“A vida continua.”
“A vida segue
E você deve ir com ela”
“Você deve continuar.”
Eu devo continuar?
Como posso continuar?
Nem ao menos sou eu ainda
Nem ao menos a alegria está em minha companhia
Pelo caminho vão ficando pedaços de mim
Pedaços que eu precisava para continuar
Pedaços que eu ainda preciso
E agora estão lá, perdidos ao caminho
E eu devo continuar por quê?
Continuar caminhando incompleto
Eu devo continuar caminhando
Mesmo que eu não seja eu sem eles
Continuar me despedindo de mim mesmo pelo caminho
Por quê? Me responda, já que insiste que devo ainda assim caminhar
Sem olhar para trás e ver os que são você
Os que foram você
E agora somem no horizonte
Despedaçado eu obedeço
Imbecilmente sigo em frente
Caminho
Sei meu próprio fim
Já o vi várias vezes
Vivi para ver minha própria morte
Vivi para ver os corações que eu amava pararem
Vivi para ver sorrisos que eu sinto saudade
Se transformarem em dor e sofrimento
Vivi para ver as flores murcharem e a hipocrisia florescer
Vivi e ainda vivo
Será que vivo?
Será isto então o sentido da vida?
Morrer antes, mil vezes
Até que se morra de verdade
Estamos de novo ao redor de um pedaço de carne
Mas quem está aqui afinal?
Quem morre e quem vive
Qual nossa diferença?
Suponho que só as lágrimas
E alguns passos a mais.
(Imagem: Prometheus de Elsie Russell)
www.parnasse.com/olderlist.htm

domingo, 3 de julho de 2016

#57 Pecado capitão


A noite me acompanhou
Chorou comigo
Olhava-me do alto
Bilhões de olhos brilhantes
Retribuía de baixo
Assoviando ordinário
Mergulhando no estrelado céu
Vidas passadas e futuras
Caminhei na linha
Pisei no fino destino
Esticado ao infinito
Vaguei pelos paraísos
Tropecei pelos infernos
Vi tudo
O infame e o eterno
Agora ainda choro
Observado do alto
Viver é meu pecado.

(Imagem: Frans Peter Verheyen)
www.franspeterverheyen.com

domingo, 26 de junho de 2016

#56 Porque...


De tempos em tempos
Eu escrevo
Coisa de momento
Sem pretensão
Sem intenção
Só um gracejo
A um pobre coração
Mudo e surdo
Mas cheio de emoção.

(Imagem: Broken Heart de Patricia St. Clair )
www.paintingsilove.com/image/show/275895/broken-heart?path=artist&artist=patriciastclair

terça-feira, 31 de maio de 2016

#55 Abra-se


Sentado na janela
Ele olha
Ela passa
No balanço da rotina
É a vida
Cheia de graça
Olha-o nos olhos melancólicos
Como quem convida
Vem ser feliz
Levanta e voa
Sorri, sente
Chora, mente
Se arrepende
Te dou tudo
Quando não tiver mais nada
Estarei presente
Fechou-se a janela.

(Imagem:A Paris Street por Samuel John Peploe)
artuk.org/discover/artworks/view_as/grid/search/actor:peploe-samuel-john-18711935-58024


sábado, 16 de abril de 2016

#54 Atrás do próximo, oroboro


O requinte de ser triste
Pois só quem é triste tem olhos atentos
Capturam as mínimas belezas desse mundo
Se alimentam de sua alegria
Em pequenos goles
Sorvem a vida das coisas
Esquecem da sua própria miséria
Mesmo que por poucos segundos
São felizes
E então
São novamente tristes.

(Imagem: Álfheiður Erla)
www.alfheidurerla.com

terça-feira, 8 de março de 2016

#53 Mesmo que seja por amor, pode ser ruim


Eu ficaria cego com prazer
para que você visse como vejo
Eu doaria meu coração facilmente
para que você sentisse minha alma
Correndo feroz por suas artérias
Eu trocaria meu sorriso por todas as suas lágrimas
Eu nunca mais dormiria
para poder realizar seus sonhos
Mas quem sou eu?
Um ser desfeito em melancolia
Um ser refeito em utopias
Escrevendo para o mundo
Como se este fosse minha amante
Sequer me nota
Impotência chega a ser eufemismo
As frases ecoam em minha cabeça
vibram pelo meu corpo
Mas silenciam com o grito do vento
Cheio de boas intenções é o próprio diabo
Mas quem é você?

(Imagem: André Malerba)
www.instagram.com/amcaptures