domingo, 20 de agosto de 2017

#71 O de Sempre


Já faz tempo que não escrevo
Talvez estivesse evitando esse reencontro
Eu comigo mesmo dentro de mim
Que companhia mais melancólica
Que lugarzinho mais imundo
Pessimista sonhador
A pior combinação para se ter na alma
Querer mudar o mundo
Sonhar com o infinito
Ter certeza do fracasso no primeiro segundo
Viver no automático
Passando por dias sem significado
Pode ser considerado dádiva
Usando os outros como ópio
Entorpecido pela companhia
Com a vista turva
Evito me ver ou me questionar
É triste só existir
Dia após dia
Mas dói muito mais viver
Ver o que se é
O que seria
 Pensar no que será
Construir um objetivo para buscar
Sabendo que não alcançará
"A utopia serve para caminha"
Sadismo sentimental
Uma condição insustentável
Porém fundamental
é...
Infelizmente eu me encontrei de novo.

(Imagem: Dream in a dream por Fabian Perez)
fabianperez.com/

segunda-feira, 12 de junho de 2017

#70 Dialética


O mundo é barulhento demais
Tento gritar
Mas ninguém quer ouvir
Prefiro calar
Converso ao pé do ouvido com gente fingida
Ninguém se sacrifica por ninguém
É tudo enganação
Esse ideal Cristão
É uma mentira
Ainda assim é arraigado no discurso
Enquanto na Alma sequer encosta
Ninguém ouve ninguém
Acena, concorda
Na verdade as palavras que ouviu
Nunca se deu ao trabalho de entender
Maldito teatro
Que morramos todos sozinhos
Pro inferno toda retórica
Que o discurso rasgue a alma e a mate
Pois valeria mais ser mudo
Já que o mundo é barulhento
E todos são surdos
Incluindo Deus e o Diabo.

(Imagem: Stanislav Krawczyk)
standarkart.bigcartel.com
www.instagram.com/standarkart

domingo, 30 de abril de 2017

#69 Ainda não aprendi a viver




Como vocês vivem
Sabendo que estão pisoteando sonhos?
Como vocês vivem
Caminhando sobre as brasas, quase apagadas
Resultadas da chama de um coração que parou de desejar?
Como vocês vivem
Disfarçando todo esse peso nos ombros
Causado pelo mundo que desejou, mas nunca aconteceu?
Como vocês vivem
Dissimulando prazer enquanto o fio das palavras
Que ficam na garganta fazem-no engolir teu próprio sangue?
Como vocês vivem
Sorrindo com uma alegria que agoniza
Pronta para morrer na próxima esquina?
Como vocês vivem
Dançando na chuva enquanto sua casa se alaga?
Como é que se esconde quem se é
Se contorcendo para guardar em segredo esse sofrimento
Quem puder me ensine
Pois estou derretendo 
Nesse inferno gelado que é existir
Debaixo dos escombros de minha alma
Eu ainda resisto
Porém ofegante.

(Imagem The Flame por Jackson Pollock)


domingo, 9 de abril de 2017

#68 Sentimentos em silêncio


Não é engraçado esse sentimento?
Talvez você me pergunte qual
Mas já faz um tempo que não sei distinguir 
Quando sinto, sinto tudo
Fora disso, sou só vazio
Quando sinto
Sinto o mundo que pulsa
Se movendo comigo 
Sinto o ego em mim
E me vejo nos outros 
Compreendo o que fazem
Porque fazem
Quando matam
Quando sofrem
Porque sim e porque não
Me encho de uma alegria triste
Ou uma tristeza alegre
Tanto faz, pois a lagrima toca a boca
 No momento que os olhos riem
O gelo que queima derrete em um fogo frio
Me sinto vivo enquanto desejo morrer
Na beleza de tudo que cerca sinto-me horrendo
Na beleza de tudo que me interna vejo lá fora o horror
Não sei mais dividir sim e não
Os milhões de palavras proferidas todos os dias
Em milhares de idiomas
Se trocadas pelo silêncio, que diferença faria?
Porém, e se os milhares de segundos em silêncio
Compartilhados por nós, fossem trocados por pensamentos altos
Que diferença faria?
Nós escutaríamos o silêncio, ouviríamos os pensamentos
Ou continuaríamos fingindo?
Comentando nossa miséria em forma de piada
Falando da nova desgraça
Expressando uma mini-tristeza por meio segundo
Logo depois riríamos de novo
Entra em um ouvido e sai pelo outro
Era essa a frase professor?

Não é engraçado esse sentimento?
Mas e se os milhares de segundos compartilhados por nós
Fossem trocados por sentimentos altos?

(Imagem: Alexey Kondakov)
facebook.com/alexey.kondakov.48
instagram.com/alksko

quinta-feira, 16 de março de 2017

#67 Buraco Negro


Fui ao médico 
Estou com refluxo
É uma merda!
Este gosto amargo que me sobe à garganta
Esta azia maldita
A doença é caracterizada pelo retorno dos ácidos estomacais ao esôfago
Descobri que não é isso que tenho
O que tenho é diferente
É um refluxo da mente
Sobe-me a garganta igual
Amargo, junto da azia maldita
Acho que a confusão foi digna
Sigo tomando antiácido após as refeições
Sem efeito, tomo por rotina
Me agrada o gosto
Talvez um hábito hipocondríaco
Mas sigo...

Agora, sobre o que sinto:
O que arde em mim
É uma mistura de saudade e inveja
Uma azia por querer a morte e amar a vida
Querer fazer tudo enquanto acompanho a queda de uma folha
Dançando ao vento, indo ao chão
O que arde em mim
É essa vontade de amar
Enquanto me escondo num canto
Não consigo me olhar no espelho
Quem sou eu para dizer que amo?

Percebe minha inveja?
Invejo os de coragem
Me perco em palavras
Eles se perdem em poesia
Eles vivendo, eu escrevendo
Sou um covarde cheio de vontade
Combinação ruim
Essa consciência de mim
É a pior das sinas
Essa angústia de existir
Sabendo dos que transbordam vida
Percebe minha saudade?

Eu sou saudoso dos que invejo
A tristeza ao ir de encontro a vida se acende
Ascende a um lugar menos penoso
Mais leve, onde aproveita
Se encanta e reverbera diferente
Mesmo sabendo da queda ao fim
Aproveita cada segundo
Sorve a vida que se irradia
Até que ao seu lugar retorna

Sente o gosto amargo subindo-lhe a garganta?

(Imagem: The Only Way Out Is In  por Adam Lupton)
alupton.com

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

#66 Qual a graça de viver?


Não é estranho como o infinito parece real
A existência cotidiana parece não ter fim
Viveremos para sempre
Sem questionar: bom ou ruim
Mas a morte bate na porta de tempos em tempos
Nossa finitude vem à tona
Armada até os dentes
Rasgando a alma
Parece que nada vale a pena
Nossa existência sem fim
Torna-se pequena
Lembra que somos apenas pó
Ao pó voltaremos
Com o máximo de sorte
Nossos átomos
Que já foram de muitos outros
Se tornarão parte de uma rosa
Farão parte de um presente apaixonado
Porém, todo esse romantismo
 Não importa realmente
Estaremos mortos, não veremos
Só que qual a graça de viver
Sem brincar de ser infinito
Em meio a minha melancolia
Provavelmente morreria
Com meu corpo feito de partículas
Mas alma vazia
Que graça teria petrificar-se
Neste mundo líquido

(Imagem: Emil Alzamora)
www.emilalzamora.com

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

#65 Superfície calma


Fundo em mim mergulho
Noites assim são longas
Prendo a respiração e vou
Descendo até não haver luz
Nas profundezas do que sou
A pressão aumenta, me esmaga
Mergulhei, amarrado à pedra
Afundo com medo em treva
Apesar de não querer voltar

(Imagem: Toni Frissell)