domingo, 12 de outubro de 2014

#24 Filha


Passa no céu uma estrela cadente
Meus olhos acompanham seu brilho
Ela se apaga
Dou mais um gole na aguardente
A porta se abre
Você entra sorridente
Nunca vi sorriso tão bonito
Um simples boa noite sai de sua boca
Aceno com a cabeça
Você passa pelas minhas costas
Vai deitar-se
Eu meio bêbado 
Após cinco ou seis goles mais
Me levanto, desligo o rádio
Minha companhia
Enquanto bebo e olho o céu
Todo santo dia

Tiro a velha cadeira do quintal
Ponho-a dentro da sala
Tranco a porta
Tonto pelo álcool 
Caminho até o meu quarto
 Mas antes de chegar lá
Me deparo com o seu, trancado
Contemplo a porta
Admiro os vincos da madeira
Como se ao me ver parado
Por magica Deus a destrancasse

E se
Do outro lado
Você me esperasse
em pé, me olhando nos olhos
Com seu sorriso iluminado
Vindo em minha direção
Braços abertos 
eu te abraçaria
Como um pai deve abraçar sua cria
As palavras de amor e carinho que calei
Como lágrimas sairiam 
Resumidas em um abafado
Eu te amo.

Agora encaro a porta
Martirizando-me
Por não ter feito um pedido 
À estrela cadente que vi mais cedo.

(Imagem: Red Jew por Marc Chagall)

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