Entrei num bar na esquina da morte com a vida
Pedi uma dose de desilusão
Queria perdição
Embriaguei-me de lamúrias
Sai às tantas horas sentindo cortar-me a solidão
Trançando as pernas em tristezas
Cantei um samba, todo errado
Destinado ao cachorro andando do meu lado
Estava mais pra lá do que pra cá
Então decidi me ajeitar
Cansado de andar fiz meu lar
Deitei na grama
Lembrei de quem me ama
Quem me espera voltar
Lembrei de quem me amou
E um dia me disse "eu vou,
Mas você precisa ficar"
Fiquei
Estou
Iluminado pelas estrelas
Assistindo as nuvens passando ante o luar
Eu fiquei para aprender a amar
Fazendo minha lição de casa, amei
Amei tanto que transbordei
Me pus a chorar de tristezas e alegrias
E tudo que se pode sentir estava em mim
Uma pandemia de ser
Eu era tanta coisa, me sentindo um nada
Diante de tudo que existe, minúscula fração
Minha limitada visão sequer concebe tudo o que acontece
Imagina então parar para pensar
O que aconteceu e o que virá
Meros humanos
Na Terra há uns milhares de anos
São nada
Com o privilegio de observar isso tudo
Tanta beleza
Tanta grandeza
Adormeci e acordei
Sentindo leves pontapés
"O senhor não pode dormir aqui"
Foi o que ouvi
Sentei-me no chão
Quanta surpresa
Meu amigo canino ainda me acompanhava
Tirava também seu cochilo
Olhei ao meu redor
Enquanto devagar me levantava
Dei um suave tapa no cão
Para o acordar
Me olhou com olhos de reprovação
Mas despertou e me acompanhou
Me aprumando
Para então buscar o rumo de casa
Vi um senhor de cabeça baixa
A passos largos, encarando a calçada
Um único pensamento me veio
É por isso que vivemos este caos
Temos muito para olhar
Mesmo ao destino da labuta
Mas o que escolhemos?
Fazer o mesmo caminho
Dia após dia
Olhando para baixo.
Encarei meu novo amigo
De forma serena
Ele parecia concordar comigo
Ou talvez eu que, sonolento, ainda sonhasse
Foi quando me descobri em outro impasse
Com licença senhora
Onde compro ração por aqui?
(Imagem: O artista - Retrato de Marcellin Desboutin por Édouard Manet)

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